


Artigos 07 de novembro de 2008
Kaivalya
Texto do livro Yôga, Sámkhya e Tantra
Kaivalya
Kaivalya traduz-se por libertação. Para o hinduísmo, kaivalya representa o nível alcançado por um jíva-mukta (liberado-em-vida). Nesse plano encontra-se o indivíduo que se libertou das leis, dos mecanismos da Natureza e dos limites do ciclo existencial, conquanto ainda nele habite.
Pátañjali define kaivalya como “o estado em que os gunas entram em equilíbrio e se fundem, não tendo mais utilidade para o Púrusha; é o estabelecimento do poder de conhecimento em sua própria natureza.” Yôga Sútra, iv, 34.
Kaivalya, em linguagem Sámkhya, significa transcender todos os tattwas da Prakriti. Ainda que habitando nas dimensões mais sutis da Natureza, predominantemente sáttwicos, nenhum indivíduo poderá usufruir dessa condição para sempre, já que esses planos de existência são, simplesmente, estados de consciência.
Muitas vezes, uma pessoa se confunde com seus próprios pensamentos, sentimentos e instintos; mas à medida que sutileza suas percepções, é menos escrava deles. Então poderá aperceber-se apenas como testemunha e, em princípio, não se deixando influenciar pelos processos que caracterizam a Prakriti.
Enquanto não conseguem deslocar o centro de observação, os homens estão presos ao samsára. Dependentes do mundo dos tattwas, são governados pelos cinco sentidos e também por atrações, vontades, temores, lembranças e esquecimentos. Para pôr fim a uma tal escravidão é preciso que redescubram o que realmente são e que está implícito em todas as manifestações da Natureza.
Dentro de cada ser, o Púrusha ilumina cada tattwa da Prakriti. Ao mesmo tempo, ele não é cativo nem liberto. De fato, o estar livre pressupõe um estado prévio de encarceramento, e não se pode dizer que alguma prisão seja capaz de detê-lo ou afetá-lo.
Somente a partir do tattwa mahat, isto é, em estado meditativo, no qual os gunas já não têm tanta interferência, é que o Púrusha se sobressai, “libertando-se” dos processos que persistiam continuamente ao seu redor. O polimorfismo infinito do universo acontece devido aos estados da Prakriti que surgem na forma de: eu vejo, eu faço, eu gosto, etc. E a confusão acontece ao supor que esse“eu” seja o Si Mesmo, o Púrusha.
A libertação, kaivalya, consiste em romper o elo de envolvimento entre o Púrusha e a Prakriti. Segundo Pátañjali “A libertação (kaivalya) é alcançada quando sattwa atinge umapureza (shuddhi)igualàdePúrusha.”Yôga Sútra, III, 55. Tal libertação somente é possível quando mahat, expressão mais próxima da Prakriti, leva o ahamkára (egoidade) a uma autotranscendência, revelando, finalmente, a essência do conhecimento em si.
Concluindo, para a filosofia Sámkhya, será pela analogia, pela observação da Natureza e, principalmente, a partir do estado de consciência intuicional (dhyána), que poderemos compreender e, ainda, vivenciar as mais variadas dimensões do Universo. Tal compreensão e experiência estão acima do atual estágio da humanidade, dentro do qual linguagem alguma é capaz de discorrer ou demonstrar satisfatoriamente.
Assim chegamos na fronteira final onde Sámkhya termina e o Yôga se inicia. O Sámkhya se encerra na especulação e no desenvolvimento de teorias que explicam a existência, mas tal conhecimento se torna estéril quando não é fecundado pela prática do Yôga.
Artigo extraído do livro Yôga, Sámkhya e Tantra. Autor: Sergio Santos. Disponível em www.uni-yoga.org ou versão em papel disponível no telefone (11) 5093-2019.