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A introdução do SwáSthya Yôga em Portugal



Artigos 3 de março de 2009
A introdução do SwáSthya Yôga em Portugal

Artigo extraído do livro Quando é Preciso ser Forte.

 

A introdução do SwáSthya Yôga em Portugal

Em 1975, eu havia morado um tempo em Paris, estudado na Faculté Censier, da Université de la Sorbonne Nouvelle onde fiz um curso de Civilisation Française. Havia até dado um pequeno curso de SwáSthya Yôga. Mais de vinte anos depois, uma francesa ex-aluna desse curso, Christine Tinnirello, me procurou e disse que desde então estava dando classes de Yôga em Marseille. Então, valeu o tal curso de Paris, pois deixou pelo menos uma sementinha – e sabe-se lá quantas mais, das quais ainda não tive notícia! Contudo, em 1980 cinco anos haviam se passado e eu ainda não conhecia Portugal, nossa Terra-Mãe. Decidi, então, viajar para Lisboa.

Vários instrutores portugueses de outras modalidades de Yôga correspondiam-se comigo há anos. Tinham me descoberto graças ao meu primeiro livro Prontuário de SwáSthya Yôga, de 1969, que havia-se feito conhecer do outro lado do oceano e servia de manual para muita gente por lá. Chegando a Lisboa, enviei um telegrama a cada um desses fiéis correspondentes de várias cidades informando que eu estava em Lisboa e que queria me reunir com eles no meu hotel, dali a dois dias. Devem ter-me considerado desatencioso por não haver programado o encontro previamente. Na Europa tudo é planejado (planeado, como se diz em Portugal) com uma antecedência considerável e os europeus ficam desorientados com o imediatismo e a praxis de improvisação dos brasileiros. Não obstante, apesar da convocação de última hora, não faltou ninguém.

Nesse primeiro encontro recebi o convite para ministrar um curso na escola do Mestre Stobbaerts, a Budokan, em Cascais. O belga Georges Stobbaerts era Mestre de Aikidô, mas também ensinava Yôga e já havia publicado um livro intitulado Hatha Yôga. Conhecer Stobbaerts foi para mim uma lição de hierarquia e disciplina orientais. Ele vivia, na época, já há mais de vinte anos em Portugal, contudo dava as classes na sua língua nativa. Todos os seus alunos tinham que aprender francês para fazer Aikidô com ele. E não eram poucos! Ao comentar isto, lembro-me de Almodovar que, ao receber um prêmio em Cannes, proferiu o discurso de agradecimento, não em inglês, não em francês, mas em sua própria língua, o espanhol. Achei digno. Hoje, mais de trinta anos depois, embora eu fale quatro línguas e meia , faço questão de dar meus cursos em português, com exceção da Argentina, pois considero que esses nossos irmãos e parceiros de latino-américa merecem que eu fale com eles em sua língua.

Voltando a 1980, no curso de Cascais comecei a preparar o primeiro grupo de instrutores lusitanos que passariam a realizar um trabalho excepcionalmente sério e competente em Portugal. Os primeiros que formei foram António Manzarra Miguel, Jorge Veiga e António Pereira. Jorge Veiga representou muito bem o nosso trabalho durante um bom tempo. Guardo dele boas lembranças. É um bom professor e continua a realizar seu trabalho independentemente. Manzarra continua meu bom amigo, apesar das décadas e dos eventos que nos afastaram e depois nos reuniram outra vez. E António Pereira, o mais antigo, que começara com o meu livro em 1977, três anos antes de eu desembarcar em Portugal, sempre se manteve próximo, fiel, discípulo, amigo e companheiro até hoje . Logo em seguida, chegaram Renata Sena e Luís Lopes, dois tratores com uma fúria de realização que move a minha admiração . Não podemos deixar de mencionar Catarina Candeias e, na verdade, sinto como uma injustiça não poder citar os demais companheiros que participam do nosso trabalho em Portugal. Por serem tantos, peço que me perdoem por não conseguir fazer referência a todos.

Depois de alguns anos, ainda na década de 80, percebi indícios de um golpe de estado que pretendia me tomar a União Nacional de Yôga . Meu representante em Portugal tratava rispidamente todos os instrutores que eram meus supervisionados. Estes não agüentavam as pressões e antipatias, e iam saindo um por um. Renata Sena não suportou as hostilidades e se afastou de tudo. Ficou seis anos fora. Quando meu representante foi substituído por António Pereira e Luís Lopes, ela voltou. Manzarra ficou traumatizado com as humilhações e insultos. Saiu e não voltou mais. Hoje é apenas meu amigo. De setenta instrutores de Swá­Sthya em Portugal, só restavam leais a mim António Pereira e Luís Lopes, mesmo assim porque os dois estavam lecionando no Norte, longe de Lisboa. Enquanto isso, os supervisionados pelo meu representante eram tratados com maneiras muito afáveis, e esses iam permanecendo. A idéia consistia em que o exército da Uni-Yôga em Portugal fosse formado por um estado maior leal ao outro e não a mim para, no momento oportuno, dominar-me ou pôr-me para fora.

Além disso, meu representante se recusava a me informar os endereços das minhas escolas em Portugal. Estávamos em umas vinte cidades (Lisboa, Porto, Coimbra, Cascais, Sintra, Sesimbra, Setúbal, Aveiro, Tomar, Caldas da Rainha, Algarve e outras que nem cheguei a saber), e eu não tinha os nomes, endereços nem telefones dos instrutores filiados. As pessoas me perguntavam onde tínhamos o SwáSthya em Portugal e eu era forçado ao constrangimento de declarar que não sabia. Isso era para lá de estranho. Seria muito natural se o interlocutor pensasse que eu estava mentindo sobre a existência daquelas escolas. Eu pedia insistentemente que os endereços me fossem fornecidos e o meu representante não negava frontalmente. Dizia: “Sim, Mestre. Vou lhe enviar.” E não enviava. Isso se repetiu literalmente dezenas de vezes. Ele não informava meus endereços e ponto final.

Ora, os europeus são muito lentos. É cultural. Isso me beneficiou. E também não têm know-how de golpes de estado. Em contrapartida, nós aqui na América Latina, temos muita familiaridade com eles. Sentimos de longe o cheiro de um. A gota d’água foi quando António Pereira e Luís Lopes viajaram lá do Norte e vieram me visitar em Lisboa. Queriam almoçar comigo e conversar um pouco com seu supervisor a quem só tinham oportunidade de encontrar uma vez por ano. O representante não os deixou entrar na sala. Tiveram que ficar sentados de castigo na recepção durante quatro horas, enquanto eu dava um curso. Quando saí, fiquei feliz em revê-los. Disseram que estavam à minha espera para, talvez, almoçarmos juntos. O representante interveio rispidamente e disse que não era possível, que isso era um absurdo, que estavam subvertendo a programação organizada há mais de um ano e que eu tinha outros compromissos agendados. Tudo dito com chocante hostilidade contra os dois. Eles educadamente concordaram, disseram que não queriam atrapalhar, que iriam embora e tentariam outra vez no ano seguinte.

Catarina Candeias, Renata Sena, DeRose, Fernanda Neis, António Pereira e Mariana Rodrigues.
Catarina Candeias, Renata Sena, DeRose, Fernanda Neis,
António Pereira e Mariana Rodrigues.

A atitude de um e de outros não me deixou dúvidas sobre quem deveria representar o meu nome em Portugal. A partir daquele dia promovi António Pereira como representante em Lisboa e Luís Lopes no Porto. Perguntei-lhes porque ninguém mais organizava meus cursos em Portugal. Eles me informaram que essas eram as ordens recebidas. Só quem podia organizar cursos vinha sendo o, então, representante, que a tudo controlava com mão de ferro. Disse-lhes que no Brasil não era assim, que a partir de agora eles organizariam meus cursos e que tinham a liberdade de convidar outros brasileiros – os quais até então estavam proibidos pelo ex-representante de dar cursos, de trabalhar e até de visitar nossas sedes “porque brasileiro é muito mal educado”. Lá isso era verdade.

A partir de 1980 visitei Portugal para dar cursos todos os anos. Depois que António Pereira e Luís Lopes assumiram a liderança, na década de 1990, passei a dar cursos de formação de instrutores de SwáSthya Yôga nas universidades portuguesas, coisa que a administração anterior declarava paradigmaticamente que “em Portugal não é possível”. Tanto era possível que bastou trocar a liderança para acontecer. Que isso sirva de exemplo para algum outro país que esteja sofrendo de paralysis paradīgma.

Com os meus cursos ocorrendo nas universidades de Lisboa e Porto, passei a retornar a Portugal, agora duas vezes por ano, sempre com turmas lotadas.

Antes disso, porém, quando António Pereira e Luís Lopes iniciaram o trabalho no Porto, sozinhos, isolados, sem o apoio da Uni-Yôga, suportaram muita dificuldade em nome da missão. Se você leu o capítulo Vinte anos de penúria, multiplique por dez. Foi isso que eles sofreram. Passaram fome, António ficou sem ter onde morar e, a certa altura, não tinham mais a quem apelar para sair daquela situação, mas não abriram mão do SwáSthya nem do DeRose. Felizmente, no caso deles não foram vinte anos. Na década de 90, como contei acima, a partir do momento em que foram encarregados da liderança, bem como dos cursos, as coisas começaram a melhorar rapidamente. Hoje ambos estão muito bem de vida e são cases de sucesso internacional.

A bem da justiça, devo inserir aqui um testemunho. Os brasileiros não conhecem os portugueses. Os que nós conhecemos por aqui são os imigrantes humildes que vieram diretamente das aldeias para trabalhar inicialmente como garrafeiros, vassoureiros, funileiros, empalhadores de cadeiras etc., profissões essas em sua maioria extintas há quase cinqüenta anos. Ganhando algum dinheiro (ou, às vezes, trazendo-o), tornaram-se, no século passado, donos de pequenos negócios como botequins e padarias. Mas continuavam sendo imigrantes pobres, pessoas simples, não raro rudes e iletradas. Pronto! Essa passou a ser imagem dos portugueses que os brasileiros assimilaram.

Acontece que não podemos julgar um povo pelos seus imigrantes que, salvo honrosas exceções, são geralmente pessoas menos educadas. Os imigrantes brasileiros em Portugal também criaram uma imagem algumas vezes negativa da nossa cultura e que igualmente não corresponde à realidade brasileira. Até porque fica difícil falar de brasileiros, genericamente. Seria o equivalente a generalizar os europeus como se fossem todos a mesma coisa, ignorando as idiossincrasias nacionais de cada povo.

Quero informar aqui aos meus leitores de outras terras que o Brasil, a rigor, não é um país e sim uma confederação de nações , cada qual com a sua etnia, com o seu dialeto, com a sua religião, com as suas tradições culinárias díspares. As diferenças que podemos observar entre os suíços de Genève, os alemães de Berlin, os espanhóis da Catalunya, os portugueses de Coimbra e os italianos da Sicília são aproximadamente as mesmas que existem entre paulistas (do Estado de São Paulo), os gaúchos (do Estado do Rio Grande do Sul), os cariocas (da capital do Estado do Rio de Janeiro), os baianos (do Estado da Bahia) e os manauaras (da capital do Estado do Amazonas). As diferenças étnicas, lingüísticas, religiosas, gastronômicas e outras são tão formidáveis que é impressionante termos conseguido preservar uma identidade pátria.

E quero informar aqui aos meus leitores brasileiros que os portugueses são pessoas extremamente educadas, cultas, polidas e amáveis com quem dá gosto conversar e conviver. O português, em geral, tem um fino senso de humor. É gentil, cavalheiro e fidalgo. Se cultivei alguma boa qualidade nesse terreno, o pouco que desenvolvi devo aos portugueses. E eles gostam de nós. Manifestam tanta paciência com os brasileiros que só tendo muito amor para expressar tal complacência com os nossos maus-modos-de-Novo-Mundo (todos os povos das Américas, inclusive os estadunidenses, também são assim). Às vezes, observando o relacionamento entre brasileiros e portugueses não posso deixar de compará-los aos netinhos malcriados e seus avós, condescendentes, sorrindo e achando tudo uma gracinha.

Cá para nós, eles devem ficar horrorizados com a barafunda dos plurais dos paulistas que dizem: “meu óculos”, “um chopes”, “um clipes”, “os Sousa”, “ganhou dois oscar” (flexionam ou o artigo ou o substantivo, mas nunca os dois ao mesmo tempo); devem se impressionar com as construções dos gaúchos: “tu vai”, “vem com nós”; e o que dizer da falta dos pronomes reflexivos dos mineiros: “como você chama?” Como eu chamo a quem? Ah! E as eternas crases indevidas... Bem, de resto, mesmo quando acertamos a concordância, a gramática, a ortografia, a acentuação, ainda assim, nossa sintaxe é de brasileirês. Paciência. Línguas vivas são dinâmicas e há que pagar esse ônus. Certamente isso ocorreu com todos os idiomas e continuará ocorrendo enquanto usarmos grunhidos verbais para que os antropóides se comuniquem uns com os outros.
Apesar de tudo, dependendo da região, os portugueses acham bonitinho. Apreciam mais as pronúncias do Sul/Sudeste e não compreendem as do Norte/Nordeste (desafortunadamente, é a que mais escutam dos imigrantes para trabalhos básicos). Consideram as múltiplas vertentes brasileiras como variações pitorescas da criação de umas quantas línguas, às vezes, bem parecidas com o português – outras, nem tanto.


“Meia” è l’italiano, que io non parlo proprio niente, ma capisco quasi tuto.

Atualmente, António Pereira é o Presidente da Federação de Yôga do Sul e Ilhas de Portugal.

Hoje, Luís Lopes é o Presidente da Federação de Yôga do Norte de Portugal; Renata Sena é a Presidente da Fédération Française de SwáSthya Yôga.

Em vários países ocorreram tentativas de usurpar a Uni-Yôga e o SwáSthya, marcas que foram registradas, por exemplo, no Uruguay e na Argentina por ensinantes de outras modalidades de Yóga, com a intenção de que eu não penetrasse naqueles países ou, pelo menos, que não pudesse dizer que estava ensinando SwáSthya, já registrada em nome deles e que não conseguisse fundar uma Uni-Yôga. Acontece que sou “macaco velho” e tenho um know-how de perseguições de mais de quarenta anos. Não vou contar aqui o pulo-do-gato, mas o fato é que as tentativas falharam e as marcas hoje são minhas em todos aqueles países.

Antigamente, qualquer instrutor mais antigo podia supervisionar os mais novos que ele formasse ou que o escolhessem. Devido a vários incidentes de traição semelhantes a este que está sendo relatado, o direito de supervisionar foi limitado a quem tivesse o grau de Mestre e, mesmo assim, com restrições.

O subcontinente brasileiro alberga 200.000.000 de habitantes e só a cidade de São Paulo contabiliza vinte milhões de almas.

Carioca significa “casa do homem branco”, do tupi kari’oka, contração de kara’ïwa “homem branco” mais oka “casa”.

Manauara é o natural de Manaus, nome originário da tribo dos manaús, nome da nação aruaca mais o sufixo –ara proveniente do tupi, com a noção de “ser de, oriundo de”.

Trecho extraído do Livro Quando é Preciso ser Forte do Mestre DeRose. Adquira o livro pelo telefone (11) 5093-2019.


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