


Artigos 3 de setembro de 2008
O Yôga Arcaico
Texto do livro Yôga Sámkhya e Tantra
O Yôga Arcaico
Nas esculturas e selos encontrados em Môhênjô-Darô, aparecem retratados alguns personagens que chamam bastante a atenção, e que dizem respeito aos mais importantes registros relacionados com a existência do Yôga já nesse período. Certas representações provenientes da civilização harappiana evocam exercícios de Yôga.
Um desses desenhos, registrado num sinete, representa Pashupati, senhor das feras. Essa reprodução atraiu a atenção e excitou a imaginação dos investigadores, pois mostra um homem com três rostos, sentado em samanásana (uma posição yôgi), e tendo em evidência seus órgãos sexuais. Sobre seu peito vê-se uma espécie de colar, e chifres adornam sua cabeça. Em ambos os lados dessa figura, encontram-se ainda quatro animais: um elefante e um tigre à direita; e um rinoceronte e um búfalo à esquerda; ainda, atrás do trono, existem dois cervos. Essa estampa faz referência a Rudra, personagem harappiano, que mais tarde no hinduísmo, ganha o nome de Shiva.

Selo encontrado em Môhênjô-Darô, representando Shiva.
O original, em esteatito, tem 3,5 x 3,5 cm.
Interpretando tal imagem, diz Van Lysebeth: “Shiva, princípio criativo masculino, é um dos símbolos mais poderosos e mais antigos do Tantra... Seus cornos simbolizam as forças lunares ou o touro, seu veículo e parâmetro da força sexual... Suas três faces revelam que ele suscita, mantém e dissolve o universo.” (Tantra, o Culto da Feminilidade, pág. 166). E como conclui Stuart Piggott: “Não existe dúvida de que temos aqui o protótipo de Shiva, na função de senhor dos animais selvagens e príncipe dos yôgis.” (Prehistoric India, pág. 202).
Essa descoberta constitui uma grande contribuição para a história do Yôga. As inscrições, desenhos e estatuetas do vale do Indo são documentos arqueológicos preciosos que já demonstram, por si sós, a existência do Yôga na civilização harappiana.
Importante também aqui é dizer que a valorização do caráter feminino, a reverência à natureza, a virilidade de Shiva (o criador do Yôga), são alguns elementos da cultura ancestral que foram deixados como herança ao hinduísmo moderno, provando que o Yôga coexistiu na antigüidade dentro de um contexto tântrico, ou seja, numa sociedade matriarcal.
Muitos aspectos do padrão comportamental antigo também ficaram registrados num conjunto de escrituras chamado Vêdas. Diz-se que os Vêdas, um dos maiores e mais velhos arquivos literários da humanidade, redigido por uma infinidade anônima de autores, foi escrito em papel no período, aproximado, de 1.500 a.C. a 250 a.C. Tal obra constitui-se de tradições transmitidas oralmente, de geração a geração desde a época harappiana, sendo muito mais tarde registradas, textualmente, em livros.
O Atharva Vêda, parte integrante de tal literatura, é o livro mais próximo do cotidiano do povo harappiano. Ele prescreve várias receitas para uma vida longa e para a felicidade e fazem-se homenagens à beleza e à fertilidade da terra: “Oh, terra! Agradável pelas tuas colinas, montanhas cobertas de neve e florestas; castanha, negra e avermelhada e de todas as cores...”
A especulação sobre a origem do universo tem por vezes algo de cético. Citando o Rig Vêda: “onde quer que esta criação tenha tido origem, quer Ele a tenha feito quer não, Ele que é o dirigente deste mundo no mais alto dos céus, apenas Ele o sabe ou, talvez, nem Ele.” (Conhecer Melhor a Índia, G. N. S. Raghavan, pag. 20).
Com tais indícios, podemos observar que o negativismo da existência, bem como a tendência espiritualista (Vêdánta - que estudaremos mais tarde), bastante intensificada na Idade Média, pareciam não existir naquela época. Todos esses fatores acima, somados, mostram que o Yôga possuia a tendência Sámkhya e Tantra, posteriores capítulos deste nosso trabalho.
Texto gentilmente cedido do livro Yôga Sámkhya e Tantra, autor: Sergio Santos, 5º edição.