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Análise dos primeiros versículos do Yôga Sútra de Pátañjali



Artigos 2 de julho de 2009
Análise dos primeiros versículos do Yôga Sútra de Pátañjali



 

Análise dos primeiros versículos do Yôga Sútra de Pátañjali

No século III a.C., o grande mérito de Pátañjali foi o de perenizar o Yôga mediante sua tese Yôga Sútra. O grande demérito foi que oficializou-se como Yôga algo que propunha uma postura comportamental contrária à proposta original. Deixa de ser tântrica para tornar-se brahmácharya, seu oposto diametral.

Apesar disso, o Sámkhya, filosofia teórica do Yôga que possui características naturalistas, está visivelmente contido na obra de Pátañjali, uma vez que a linhagem ensinada por ele era de natureza Sêshwarasámkhya-Brahmácharya.

Sútra pode significar cordão ou aforismo. Aforismos são ensinamentos cifrados em resumidíssimas palavras, somente inteligíveis para os iniciados naquela linha específica.

Em seu texto original, que possui mais de dois mil anos, o Yôga Sútra foi dividido em capítulos, sendo eles Samádhi Páda (Trilha da Hiperconsciência), Sádhana Páda (Trilha da Prática), Vibhuti Páda (Trilha dos Poderes) e Kaivalya Páda (Trilha da Libertação).

Iremos agora fazer uma breve analise de alguns trechos da tese de Pátañjali.

De seu primeiro capítulo, Samádhi Páda, o primeiro sútra é:

Análise dos primeiros versículos do Yôga Sútra de Pátañjali

Como vimos acima, os sútras de Pátañjali são extremamente diretos, o que caracteriza uma forte presença do Sámkhya, naturalista e analista.
Análise dos primeiros versículos do Yôga Sútra de Pátañjali

Já o segundo sútra do capítulo I, trata da definição do Yôga. E, sobre sua tradução, existe um capítulo.

Frases diferentes, significado igual?

A mesma coisa pode ser dita com várias construções diferentes. Essas distintas formatações podem estar sujeitas a uma quantidade de variáveis, tais como:

1) a época em que a tradução foi feita – levando-se em conta as tendências filosóficas vigentes e os modismos da linguagem (por exemplo, na transição ao século XXI os termos que sugerem misticismo devem ser evitados na literatura mais séria de Yôga, para distingui-la da onda de esoterismo barato, misturança consumista e charlatanismo, que vem se tornando uma pandemia);

2) o lugar onde o texto vai ser lido – se estiver em português, será o falado na América (Brasil), na China (Macau), na Índia (Goa), na África (Angola, Moçambique) ou na Europa (Portugal)? Tomemos como exemplo as frases lusitanas: "leve ao lume até que deite fumo" e "carregue no autoclismo da retrete" que significam para a vertente brasileira, respectivamente: "leve ao fogo até que saia fumaça" e "dê a descarga no vaso sanitário". Inclusive dentro do mesmo país, é comum uma palavra mudar completamente de sentido, dependendo da região.

3) o públiço a que se destina - uma tradução do Yôga Sútra, feita para eruditos em Yôga será forçosamente diversa de uma outra dirigida a sanscritistas, que estão bastante interessados nos aspectos lingüísticos, mas não detêm um conhecimento profundo do Yôga. Muito menos sobre as filigranas que distinguem, notavelmente para nós, um Yôga de tendência Sámkhya-Tantra (pré-clássico) de um outro Sámkhya-Brahmáchárya (clássico), ou mesmo Vêdánta-Brahmáchárya (medieval). Cada linha de Yôga confere aos sútras interpretações bem particulares, que chegam mesmo a ser inconciliáveis entre si. Um exemplo disso é a tradução do yama brahmáchárya. Os vêdánta-brahmácháryas atribuem-lhe o sentido de celibato, com total abstinência sexual, até em pensamentos. Os tântricos traduzem como castidade-nos-atos-sexuais, ou seja, cultivar uma sexualidade sadia, com pureza e sob determinados princípios morais, técnicos e filosóficos. Sendo o Yôga Sútra um livro de linha Sámkhya-Brahmáchárya, optei por traduzir esse mandamento ético como não-dissipação da sexualidade, o que tem a vantagem de satisfazer as duas correntes.

Também devemos ter presente o fato de que a maior parte das traduções disponíveis faz concessões a um misticismo que, no entanto, não existia no período clássico. Tais conotações foram instiladas por comentaristas impregnados de conceitos Vêdántas, bem como por espiritualistas ocidentais, que cristianizaram o Yôga durante e após a dominação britânica da Índia.

Nesta edição, com mais de 40 anos de estudo e 24 anos de viagens àquele país, permito-me exercer uma postura mais crítica e categórica com relação a determinadas discrepâncias. Por exemplo, enquanto é quase unânime os autores traduzirem chitta como mente, os meus estudos me concedem hoje o privilégio de discordar.

Chitta não pode ser identificado mediante a palavra mente. Ele é muito mais do que isso: chitta designa todo um psiquismo, todo um complexo mente-personalidade, que se constitui veículo da consciência e pode ser entendido como o próprio princípio consciente (no nível da personalidade, não no da individualidade): mente, ademais, é a tradução de um outro termo sânscrito (manas).

Chitta, neste contexto, é composto de três partes, a saber: ahamkára (ego), buddhi (inteligência) e manas (mente) o que, convenhamos, é muito mais abrangente do que o conceito espelhado pela simples palavra mente para os ocidentais modernos. Além disso, o vocábulo chitta provém da raiz chit, que também significa "ver, observar, perceber". Logo, é mais facilmente associável à idéia de consciência. É o caso dos atributos do átma: sat, chit, ananda – existência, consciência, bem-aventurança.

Como suporte a estas afirmações podemos citar o Léxico de Filosofía Hindú, de Kastberger, que define chitta como "a consciência, o princípio consciente".

Uma proposta conciliatória é admitir-se que se o praticante "parar as ondas mentais", controla o pensamento e, conseqüentemente, estabiliza a consciência. Esta última alternativa foi minha opção para a presente edição.

Contudo, se daqui a mais dez anos de estudos e de pesquisas na Índia, eu fizer outra revisão deste trabalho, com certeza terei melhoramentos a inserir.

Ainda bem que é assim. Os demais comentaristas de Pátañjali nunca mais modificaram sua primeira versão. Alguns, possivelmente, com receio de perder o respeito do seu público, supondo que este os acusaria de terem sido menos fiéis na vez anterior. O meu leitor é diferente, ele valoriza mais o aprimoramento constante e não a sabedoria estagnada, por melhor que pareça. Prefere a honestidade do Mestre que reconhece: nada é tão perfeito e acabado que não comporte uma superação. Nós, no SwáSthya Yôga, temos por hábito estarmos todo o tempo a nos auto-superar. Por isso, precisamos admitir várias interpretações diferentes como sendo verdadeiras.

Portanto, em alguns versículos, podemos aceitar que mais de uma forma de escrever seja expressão coerente do sútra respectivo. Afinal, como já vimos, é possível dizer a mesma coisa com diferentes frases e até com construções verbais de distintos níveis culturais. Em outras circunstâncias, porém, tal interpretação não cabe e precisamos reconhecer as divergências de opinião. Para que você tenha uma idéia do que acabo de expor, cito a seguir nada menos que 21 traduções diferentes da definição do Yôga, no capítulo I, sútra 2.

Yôgash chitta vritti nirôdhah.

1. Para Sivánanda, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
O Yôga é a supressão dos turbilhões mentais.

2. Para Vishnudêvánanda, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
O Yôga consiste em suprimir a atividade da mente.

3. Para Satchidánanda, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é a restrição das modificações da matéria mental.

4. Para Vivêkánanda, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é impedir que a matéria mental tome formas variadas.

5. Para Lin Yutang, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é impedir que a substância mental tome formas variadas.

6. Para Satya Prakash, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é a inibição das funções da mente.

7. Para Padmánanda, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é o controle das idéias no espírito.

8. Para Prabhávánanda, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é o controle das ondas-pensamento na mente.

9. Para Taimni, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é a inibição das modificações da mente.

10. Para Purôhit Swámi, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é controlar as atividades da mente.

11. Para Yôgêndra, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é restringir de modificações o complexo-personalidade.

12. Para Dêsikachar, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é a habilidade de dirigir a mente exclusivamente para um objeto e suster essa direção sem quaisquer distrações.

13. Para Dêshpandê, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
O Yôga é o estado do ser em que o movimento ideacional eletivo da mente retarda-se e chega a deter-se.

14. Para Eliade, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é a supressão dos estados de consciência.

15. Para Stephen, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
O Yôga pode ser atingido pelo domínio da tendência natural da mente de reagir a impressões.

16. Para Bailey, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
O Yôga alcança-se mediante a subjugação da natureza psíquica e a sujeição da mente.

17. Para Gardini, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
O Yôga é a supressão das modificações da mente.

18. Para Johnston, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
A União, a consciência espiritual, logra-se por meio do domínio da versátil natureza psíquica.

19. Para Tola e Dragonetti, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é a restrição dos processos da mente.

20. Para Ernest E. Wood, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é o controle das idéias na mente.

21. Para DeRose, Yôgash chitta vritti nirôdhah, significa:
Yôga é a supressão da instabilidade da consciência.

Como o leitor pode notar, as discrepâncias não são poucas. No restante da obra elas se tomam ainda mais gritantes. Por esse motivo, insisto para que o pesquisador consciencioso constate-as num estudo comparativo com o maior número possível de traduções da obra de Pátañjali.



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